Engraçado como você apareceu quando eu estava com as portas fechadas para o mundo, quando eu estava decidida a estar somente em mim, quando dei por mim já estava em ti e nem sabia. Eu não sabia o meu estado, provar do gosto de estar sem par após um tempo me fez vulnerável e iludida, talvez no fundo disso eu sabia, só não sabia que você iria me enfraquecer.
         Chegou como quem não quer nada, já me observava de longe e de mim tudo sabia, só não tinha ideia do que causaria quando na minha vida pediu para entrar. Estranho como tudo foi rápido e ao mesmo tempo nada saiu do lugar. Como aos poucos a intimidade se firmou, a expectativa cresceu e dos meus lábios se rasgavam sorrisos a cada palavra trocada, meu coração recém machucado logo tratou de querer se doer outra vez.
        Não sei como o amor se alimenta de onde não é regado, pois você molhou a terra mas não plantou a semente. Eu me vi com as poucas frases e o único momento que tivemos para nutrir uma relação que provavelmente nunca acontecerá. Não sei se é amor, paixão, doença, atração ou se tudo isso junto, aliás, com você eu não tenho certeza alguma desde o começo. Não sei como lidar, não sei o que dizer, o que interpretar dos teus sumiços, do teu silêncio, mas quero interpretar muito mais quando você me chama -sem jeito- para conversar com um assunto qualquer. Busco diariamente achar onde cometi o erro para tanta súbita mudança, logo eu que tomei tanto cuidado para não te afugentar, quando no fundo a vontade de ser intensa gritava mais que tudo, aquela incerteza de entrar no teu jogo sujo de indiferença e desapego ou assumir o papel de entregue e arcar com o risco de me magoar.
        Odeio tantas coisas em ti que me pergunto onde foi que achei amor nisso tudo, o que mais me intriga é que não consigo te odiar e esqueço no mesmo segundo tudo o que me diz para desistir, desistir de algo que nem começou. Como é possível amar o oposto, amar algo intocável, amar aquilo que não se conhece?
       Crio momentos em minha mente e revivo as poucas frases e olhares que trocamos na esperança de que isso me conforte, busco interpretações e justificativas para o que não deu certo, explicações para o que poderia dar. Eu sei que não precisa de palavras duras para eu finalmente reconhecer que isso não me levará à nada, isso não nos levará à nada, você nunca regou a planta, porque ela nem chegou a crescer. Mas no fundo eu continuo esperando ser teu sol, ser aquela coisa boa para compensar teus dias ruins. 
        Eu continuo esperando ter a chance de fazer valer à pena e de que você seja como no fundo eu imagino que és, que teus muros, tua cara feia e teu mau-humor são fachadas, são jogos de desafios e paciência que eu tenho de vencer. Mas é difícil de saber, a linha tênue que separa a indiferença do medo de agir é fina e frágil e eu sou nova nesse jogo de desapego. Ou sou tudo, ou não sou nada, ainda que por você eu estivesse disposta a ser meio termo, a ser qualquer coisa, qualquer coisa que ultrapasse o SE, o TALVEZ, a possibilidade de que a gente pudesse ser algo mais e de que pudesse dar certo, é como agulha que arranha na pele, é incômodo pequeno, mas que se presentifica todo dia.
        Difícil mesmo é pôr dois pontos ou um ponto final quando a única certeza que tenho é que esse texto vai passar por você despercebido e eu terei jogado a chance de dizer tudo o que tenho para dizer, porque fui covarde, porque sou orgulhosa e porque não quero entregar meu coração correndo o risco de uma catástrofe cair sobre mim. A verdade é que eu só quero tentar, se for para dar certo, mas que a possibilidade de acontecer é perfeita daqui de onde vejo, dentro da minha mente.
    
     Eu to cansada de tentar achar resposta, de reunir esforço para compreender esse teu mau jeito, esse teu desleixo, esse teu devir. Bem exausta para buscar impulso em me atirar mais uma vez nesse amor sujo, de tentativas cegas, e me perder no teu cínico discurso.
   O meu amor está manchado, está marcado pelos erros que tu cometeu. Minha vontade virou pó, agora é cinza de tudo aquilo que me prometeu. Nossos olhos não se encontram mais com o mesmo brilho, nossos corpos não tem mais viço, a plenitude se perdeu.
    Estamos seguindo direções diferentes existencialmente, e direções diferentes no amor. Você, cheio de si, ocupado com os planos irrealizáveis; você, livros e inteligência e altivez; você, tão fechado em si mesmo, em ser o melhor, seu ego tem falado tão mais alto que já não és mais capaz de ouvir minha dor.
   Você cresceu tanto que agora já não me enxerga tentando alcançar tua mão aqui em baixo e quanto mais tu corres e foges de encarar o fim, mais o monstro que eu enxergo em ti aumenta em mim. Você espalha migalhas de um amor miserável e eu vou seguindo, você veste uma armadura impenetrável de não se deixar afetar e eu infame permaneço fingindo.
   Quanto mais eu te peço mais, menos você me dá, e quanto mais eu suplico e lamento, menos você quer ouvir. E quanto mais os outros  eu invejo, menos você tem feito para mudar, e quanto mais eu desisto, menos ainda você tenta salvar.
   Eu não sei o que fomos, sei que hoje já não somos mais. E se um dia houve amor, ficou para traz, porque nos tornamos estranhos num ninho sem paz.

    Eu que cheguei a tal ponto de ser incapaz, de ficar tão difusa e indefesa, refém de mim mesma, demorei tanto a finalmente conseguir gritar e quando tentei, a voz foi insuficiente. A tristeza que nunca foi passageira toma o controle outra vez, mas desta vez foi preciso de muito mais que tristeza para finalmente estar de volta à estas linhas. Enquanto isso, meu corpo quente sente frio, eu tremo com as minhas próprias mãos geladas, mais trépida que um galho seco, retorcido pela dureza da mesma dor outra vez. É quando olho por entre os rostos e vejo um horizonte distante me chamar, ouvindo o som do vento passar como sussurro da verdade.
     É só a solidão chegar que eu visto meu véu de névoa, enxergando os dias como lânguidos, acordando  bem cedo com a dor de existir presa num corpo frágil e doído, enquanto a alma se afoga nas próprias emoções. O dia, a tarde e a noite passam, o que não passa é o vazio desse passar, do não viver e do sentir demais que faz doer.
     A existência do existir só faz pulsar a frustração de estar presa na vida, é difícil estar em minha própria mente, como se os pensamentos fosse névoas espessas e a respiração não fosse fôlego. Eu não tenho coragem, porque não fui feita para este mundo, eu não tenho força porque sou uma alma cinza num corpo fragmentado, eu não tenho sorriso porque não fui feita de cor. São mais alguns versos tristes que pouco vão dizer mais a alguém e que o mundo não irá ler, mas que são o sopro do que sou agora, porque no mais, está difícil existir.


       Eu precisei atingir aquele nível decadente de sofrimento que se vive quando se ama, para então voltar aos tempos antigos de quando eu me guiava cega pela vida. Finalmente chegou, aquele tempo de escuridão esteve à espreita para me puxar pelo braço quando meu sorriso bobo vacilasse. E finalmente me puxou.
       Como se eu fosse espectadora do meu próprio filme de uma história que se repete, e repete, repete. Talvez o sol só apareça para a chuva molhar depois, e os sorrisos alegres para depois apagarem-se com a dor.
       Tenho a alma vagabunda de um velho de bar, meu coração deve se afogar em whiskey, e o cigarro que nem fumo se apagar levando um pouco da minha própria vida. Talvez o destino seja blues, noite e poesia, seja contemplar a vida passar e não poder tocar, como memórias.
     Já vai raiar o sol, mas só para chover depois, chover dentro das expectativas, molhar o que cuidei para ser bonito. Amanhã pode doer menos, mas só para piorar depois e ficar nessa vida de eterno retorno provando do gosto amargo que é a desesperança.
      Depois você volta, mas só para me deixar. Depois você me beija, para esquecer. Você faz feliz, para depois cortar. Enquanto você é o agora, eu sou depois, eu sou quando já não estou mais, eu sou o que não é mais, eu sou depois do que já foi depois.
       O silêncio da solidão é barulhento, como se os ponteiros do relógio e o seu tique-tac fosse obra de um demônio zombeteiro, como se a imobilidade das paredes causasse tremores.
    É nefasto, talvez porque esse terror já me seja comum, mas nunca antes conhecido de tal maneira. Nunca antes o coração martelou tão forte a ponto de doer e me provocar náuseas.
    A cama tem sido um leito de confissão, exceto quando arrasto meu corpo doente e trépido de frio, um repouso das obrigações morais e do convívio humano, uma possibilidade  de despir-me de qualquer papel e deixar as lágrimas escorrerem de cansaço. Sem planos, sem futuro, apenas uma doce e lenta entrega à escuridão que tanto espreita.
     Não há a quem confessar, se não à estas insignificantes linhas a qual me debruço e ninguém as lê. Acho que talvez de todas as vezes, essa é a mais profunda e arrebatadora condenação!
     A comida não tem mais gosto algum, enquanto respirar é quase sufocar, o coração pesa como chumbo e eu só desejaria ser feita de aço e pedra a fim de suportar a verdade insuportável. Não há bebida, não há cuspe, nem corte, nem grito algum que suprima o veneno injetado pelos segredos, a verdade é mortal. Pois num momento você ama tudo que conhece, e conhece tudo que ama, logo depois você não tem mais certeza alguma, tudo o que você tem se resume à nada, o que resta então? E quando o único sentido que se enxerga é que nada possui sentido?
   Eu não reconheço aquilo que já amei, não reconheço mais quem eu amei, as coisas e as pessoas já não são as mesmas, e pior do que essa perda é perceber que eu não mudei junto, que estagnei, o mesmo disco arranhado, o mesmo papel manchado, o mesmo peito sendo um porto de ancoragem da angústia. 

Eu vejo a tocha que todos devemos carregar 
Este é o mistério do quociente 
Sobre todos nós, um pouco de chuva deve cair.

    
      Eu tenho contido minha ira segurando as palavras que gostaria de proferir, tenho contido as lágrimas que gostariam de rolar de meus olhos, eu tenho contido a veemente dor no peito e a terrível nostalgia, eu tenho me contido mas me segurar é uma dor segura de se conter.
      É uma trabalhosa tarefa fingir uma alegria inexistente, fingir ser mais um quando não se é nenhum em meio ao todo. A solidão que se manifesta quando se está cercada,  e empoleirada em meus ombros, gargalha do meu teatro social.
    
    Porque o tempo passa se arrastando e traz a verdade  em seu encalço, e atrás dela o desalento que vou sentir ao descobrir que tudo isso é uma igual ilusão. É como se a vida me quebrasse as pernas numa areia movediça enquanto eu assisto todos se moverem em diferentes direções. É como se presa à arames farpados, eu lutasse e aumentasse as feridas, como se o tempo-espaço estivessem dobrados ao meio e eu presa num poço de piche.
    Talvez eu esteja aprisionada no limbo e não consigo me desvincilhar dessa consciência terrível que é o viver. Talvez eu esteja num quarto trancado e nem eu nem ninguém mais possua as chaves para abrir.


 
    Ensejo dos lábios meus, minha saliva tem o teu gosto, quero os dedos de tuas mãos entrelaçados aos meus.  És a cura ao meus olhos, és o que vívido pulsa, o que de bonito lateja em meu coração. Estou enamorada por tuas costas largas e teu sorriso solto desde que meus olhos se deitaram sobre ti. Então desde que te tenho e me deixei à ti pertencer, o corpo e alma gritam loucos para te ver, doidos para ter.
    Eternos e lúgubres instantes quando o brilho dos meus olhos encontra o brilho dos teus, e nossos corpos sorriem falando a língua do amor. No dedilhar das cordas do teu violão o peito meu compõe canções de juras de amor, a pele marcada, ardida de paixão que trepida ao simples toque teu. E queima, e estremece, é como bicho solto e selvagem  esse amor feroz, que atroz, me devora de uma saudade endoidecida. Mas amor, amar-te dói, mas é para isso que vivo, é por isso que respiro... para em teu beijo verter todo o meu ar vital. 
   És aquela brasa que reaviva o fogo, és o sopro do trovão, és o sol que vence as nuvens, és o pulso do coração. Estais em tudo, és tudo...  A poesia daquela música, aquele banco da praça, aquela lua de prata naquela noite suave e a brisa doce que tremula tua camiseta.
    Amor, és tudo! Não sou mais senhora de mim desde que és meu senhor, mas amor, és lindo, e o mundo pertence a nós.


Dedicado à R.
  

    Nunca passa. Ainda que eu me esqueça, ainda que eu sorria, ela nunca vai passar. Ainda que amanhã eu  acorde e já nem recorde, ela logo voltará. Nunca passa, nunca passa porque Ela sou eu, e eu sou parte dela.
    Ainda que as lágrimas adquiram voz e gritem até assombrar  o mundo, ainda que eu escreva para extinguir a dor até meus dedos sangrarem, ainda que eu corte quem me corta, ainda que eu bata quem me bate, ainda que eu mate quem me mata... ainda assim nunca vai passar.
   Não há choro que console, não há raiva que reprima, não há dor que se amenize, não palavra que defina. Não existe nada na Terra que explique o tamanho e a fundura do buraco na alma, e não há percurso que eu percorra nem morada que eu construa que me proteja dessa miséria.
    Nunca passa! O tempo, até ele tem passado, mas Ela nunca passa. Não há um dia em que ela não me alcance, não há um esconderijo em que ela não me descubra, não felicidade que ela não esmague, não há calor que ela não congele, não há amor que ela tolere, não há paz que ela não perturbe.
    Nunca passa! Essa tristeza demoníaca e satânica que me humilha, zomba, destrói e me arrasa; essa personificação animalesca e amaldiçoada em forma de mulher, nunca passa. Ela nunca passa, nem nunca passará, nem quando as trevas da morte e do inferno a acolher, ela nunca vai passar.
     
 

    A fervorosa cor pintada em meus dias, a glória toda infinita irradiada num só sorriso. E quando o desejo aplaca o medo, é aquela mão que preciso segurar, naquele peito quente me recostar. Quando a tarde quente me tira a paz, quando o relógio maldoso se apressa em correr, eu só preciso vislumbrar o mel dos olhos para escorrer, para o mel daqueles lábios e nos braços abraçados me segurar.
    O sopro de vida do meu peito, a força vital que me mantêm em pé nas notas de uma voz grave. E quando por uma desventura aquele amor me magoa, são os braços firmes e o olhar nos olhos que me desfaz. A magia que ele faz acontecer, é um mundo que nenhum outro fez nascer, pois até mesmo o silêncio com ele diz tudo que outrora calou.
    Porque vê-lo caminhar para mim é sentir os segundos se arrastarem, e segurá-lo com meu corpo frágil é segurar meu mundo inteiro e me sentir forte. Porque amá-lo é um exercício de poesia, beijá-lo é beber do fio da vida, envolvê-lo é estar nos braços da paz.


Dedicado à R.