Acaba-se tudo sem que nada precise ser dito. Se tudo estava bem e certo basta que o veja, que ouça sua voz, para que tudo desmorone; e é quando a raiva por o amar a domina, é quando a tristeza toma conta por não tê-lo.
Bate a enorme vontade de poder matá-lo dentro de si, de sair fugida e sem rumo para longe o bastante para esquecê-lo e perder a própria identidade no tempo.
Recai a verdade que enquanto não libertar-se não haverá vida adiante, e não poderá sequer tentar seguir com um amor alternativo.
Em cada rock tocado lembra-se dele, e sofre frágil, por não ser capaz de afastar-se do que tanto a martiriza. Segue sorrindo de sua própria dor, e fingindo que pode fingir estar bem.
É o fim do mundo à cada memória; tudo o que poderia estar curado volta à renascer em carne viva. Em novos cortes vai sangrando este amor maldito, e vai desmoronando decepcionada porque achava que poderia aguentar até que o tempo fizesse algo.
Somam-se as verdades de que é incapaz de fugir, caem por terra as sentenças tortuosas e, os tão distantes sonhos de amor afastam-se ainda mais... resta somente a solidão em morte.
Homens que caminham cegos à procura de respostas correm o risco de caírem no abismo que eles próprios cavaram. Alheios às penas, cometem crimes que corrompem por inteira a possibilidade de serem salvos, e escondem em seus corações os mais macabros de seus passados manchados à sangue.
Nas mais pacíficas sociedades, em lugares de que ninguém possa desconfiar, lá escondem-se os mais maléficos que disfarçam-se de bons para ter o elemento surpresa como carta coringa, e mesmo sendo esporadicamente levianos em seus propósitos, no fim do jogo conseguem o xeque-mate.
No calar da noite, em porões de que ninguém sabe, juntam-se homens para conspirar seus desejos maquiavélicos, bebem vinho em culto ao sangue derramado, encenam assassinatos que pretendem cumprir; e antes que os primeiros raios de sol nasçam, caminham como vagantes em direções à seus lares.
Em cada grupo de bons samaritanos, esconde-se ao menos um malfeitor, e em toda a face afável existe um segundo lado a revelar-se. De toda beleza aparentemente inquebrável surge uma brecha para outras verdades, nascem novas convicções não desejadas.
Os homens aproveitam-se das pequenas falhas e delas fazem cultos, e celebram, e expõem ao todo resto a inverdade do próprio mundo. Puxam as cortinas que escondem o verdadeiro lado de que ninguém quer saber; esses homens estampam as surpresas desagradáveis, e a dor que assola os alienados é a carta na manga destes que nada sentem em causá-la.
Quando todos fingem que tudo está certo, que as dores estão amenizadas, que caminham e marcam na testa de todos a charada de suas existências. Nessa hora ficam todos perguntando-se em murmúrios ininteligíveis, marcados com a interrogação, com os olhos vazios e com o sopro de vida a ponto de esvaírem-se, coisas que nem mesmo eles sabem o que são. E enquanto todo o resto decai num fim simples, os homens sorriem e contemplam o fim do jogo.
Vindo das mais profundas entranhas da desgraça, foi feito do sangue que derramou-se numa guerra, virtuou-se da dor espalhada pelo mundo afora e dela fez o seu cálice diário. Na tensão presente nas casas de família, se esconde no armário para assustar as crianças que choram. Tem o manto feito das sombras, os olhos inundados de mal, o coração tomado pelas trevas, a alma que fugiu do inferno.
Na verdade nasceu, para expor à humanidade a maldição que recai sobre o mundo. É fato que este demônio surgiu para puxar as máscaras de tantos outros que andam por aí pelos demais, disfarçados.
Seu hálito têm a morte que devora humanos perdido. Seus passos deixam rastros negros que ficam marcados na eterna e fúnebre existência de si mesmo. Seu agouro é o causador das grandes tragédias que se sucedem em vidas humanas, por intermédio dele que tudo desmorona, à seu comando que tudo decai.
Ele é a prova de que o fim está próximo, é o símbolo de que somos todos infelizes, medíocres, de que na verdade, vagamos iludidos nesta vida quando na verdade pisamos no próprio solo do inferno.
Um demônio é só um ser sem alma que vêm até aqui para lembrar-nos de que não estamos só; nada mais é que o que nós merecemos, nada mais é que o cobrador de penitências pelos nossos pecados. O verdadeiro mal está nas entranhas de cada um de nós, tolos seres feitos de carne e sangue governados pelos seus desejos desmedidos.
A chama acesa crepita e queima, por dentro meu coração! O medo faz suas gargalhadas ecoarem, os espelhos se quebrarem. Posso ouvir ruídos lá fora no corredor escuro, posso sentir que algo sobre humano está tentando entrar aqui. Eu sei que irei morrer.
Sem escapatória eu tento pensar em formas de defesa, mas o animal está decidido a matar-me, e não existe lugar algum para onde eu possa fugir. Nada é mais certo de que serei devorada, por dentro já estou morta, mas o meu corpo frágil gostaria de uma chance de salvação.
Aperto contra o peito a cruz de madeira pedindo proteção, com todas as minhas forças eu esmago de medo o símbolo, e sinto correr de minhas mãos o sangue quente e infeliz. A porta saculeja, o monstro a arranha arrancando pedaços, e por dentro eu desmorono sabendo que serei esmagada antes por meu próprio medo. Ao longe uma música tenebrosa toca, escuto violinos soarem com sutileza aguda, sinto meus olhos pesarem, sinto que estou caindo num buraco escuro.
Tudo dentro do quarto escuro explode: espelhos, copos, retratos. E a última a se suprimir é a chama... a vela aos poucos se apagando e a fumaça deixando rastros no breu.
Antes de cerrar os olhos, vejo na soleira da porta uma doce criança sorrindo, seus cabelos lisos e negros balançando com o vento do corredor negro, e seu vestido rasgado que outrora supus que fosse branco, agora tinha manchas de sangue seco. Em sua mão esquerda segurava veneno, que encaminhando-se gentilmente para mim, me fez beber até o último gole... e a última batida do meu coração foi o desfecho final.
Sou escrava de mim mesma por ser incapaz de lutar com minha total força contra estas correntes que me prendem ao amor. Esse monstro rasga meu controle e por dentro eu declino, eu me desfaço e caio em tentação de buscá-lo. Caminho pelas ruas e lugares rezando para vê-lo mesmo sabendo que isto eu não deveria desejar, pois o amor é tão imenso que machuca estupidamente o peito e explode sempre que o vejo.
Dói permanecer neste cárcere e ver que tudo isto é vão, ao passo que nem mesmo ele sabe que sofro por amá-lo. Eu reviro a vida na esperança que a desordem me faça esquecê-lo mas as coisas sempre acabam por fim, tendo algo deste que tanto gostaria de odiar.
Como uma droga que mata aos poucos, sua existência e sua falta matam-me diariamente quando lembro-me que fui amar errada, quando vejo que eu amo só. Não poderia existir alguém mais controverso para meu coração escolher, e aqui estou eu charfundando inútil em um sentimento que não foi tomado pelo dono.
Resta-me caminhar arrastada e presa por esse peso esperando o dia em que o amor se canse de mim e finalmente me dê alforria. O que me sobra é viver com a morte aninhada no peito aguardando a hora em que não doe mais esta escravidão malévola. Só posso esperar o fim; e que chegue logo para libertar-me.