Olho pela estreita janela e vejo o fraco alvor do sol, pois sim, absorvo a certeza de que o sombrio dia que se arrastará será de incontáveis horas em que seu nome escapará de meus lábios.
Em meus ombros carrego a bagagem de pesares, e cabisbaixa caminho pelas ruas vendo meus passos atravessarem água. Pelos meus pensamentos você começa a surgir e já tão cedo meu controle se esvai, o que bastará para que qualquer rosto desconhecido que passe por mim se transmute em suas feições.
Aqui e ali observo algo de que você me faz lembrar, enquanto levanto o olhar para as negras e pesadas nuvens e murmuro preces agradecidas ao tempo por mandar a chuva para esconder minhas lágrimas.
Lá pelas tantas do meu sofrimento, o sol abre no céu com deboche numa esperança vã de espantar minha cúmplice sombria, no entanto eu continuo escura dentro de mim, e sei que logo mais quando ganhar as ruas novamente, é por você que procurarei.
Deveras, eu vivo em função da sua sombra e à tua procura. Mas bem sei que um dia seus rastros sumirão das ruas por onde passo, e talvez será em tal momento que eu me afogue por completo.
Como dou-me conta do prazer que sinto agora ao derramar estas lágrimas, e vejo o quanto me habituei à sentir a mesma dor.
Pesado, meu coração deseja escapar das escolhas que o esperam, pois dentro dele corre um sangue negro que anseia ser derramado somente por um.
Como então achar palavras que menos doam àqueles que eu não desejo ferir, se por alguns instantes uma outra eu grita para que eu ceda às promessas?
Sinto a loucura se apossar do pouco que me resta, e o silêncio me ordena coisas para que eu continue passiva.  Lá fora todos esperam que eu aja, enquanto eu ainda me sinto presa ao monstro que não quer me pertencer.
Esperam que eu faça escolhas enquanto o tempo correr e alguns já esgotam-se de mim. E mesmo que eu espere de mim mesma algum rumo, meus medos já ornaram-se maiores que minha própria vontade.
Eu vejo corações que pela minha vida cruzam à me oferecerem ajuda, mas o feitiço que o monstro lançou é bem maior que a força do mal. E no ínfimo, o amor que sinto é tento pelo meu tormento, que eu não desejo deixá-lo e seguir com as boas almas, sinto-me pertencente à esta lama em que charfundo.
Tento deixar guarnecido algum segredo que não me faça parecer vulnerável. Mas creia-me, o que mais desejo é poder me entregar. Dentro de mim gritam vozes que pedem que fique comigo, mas por outro lado tenho correntes que me impedem de agir.

Estive a espera de poder amar livre com alguém, e por este alguém escrever uma história, e agora seria bom que você me sugerisse palavras. Creia-me, pouco é o que me impede de seguir adiante, por isso, torço para que o que sofro por outrem transforme-se em página rasgada, e que o recomeço me leve a construir com você novas frases.

Não pense que quero fugir, apenas estou à espera de que meu coração se esvazie para poder preenchê-lo com você. E eu espero não ser tarde demais quando eu estiver pronta, espero ainda poder contar com tudo o que você me prometeu.

Tenha a certeza de que, se eu pudesse mudar, mudaria por você.

O som ecoa pela vazia sala que fora a única testemunha de mais este fim. No mais, todo o desfecho por si só bastaria para que ali restassem as manchas de sangue derramadas eternamente.
Antes do tiro, ela estava ajoelhada diante dele suplicando banhada à lágrimas, que apertassem o gatilho à queima-roupa. Estava a ponto de ela mesma arrancar o coração do peito num último gesto de dor e dramaticidade.
Diante daquele que amava e de que por suas mãos morreria, ela viu a vida passar num espelho embaçado, onde todos os seus erros sobrepunham-se às míseras alegrias, e todas as memórias a fizeram assinar o contrato de morte.
Antes da bala explodir em seu peito, viu pela última vez os olhos daquele que nunca amou-a, mas que sem compaixão alguma cumpria aquela tarefa como se tratar-se de outra qualquer, e não fizesse diferença alguma.
Agora seu corpo jaz sem vida no chão diante do executor com o crime entre os dedos, e sobre tudo pesa a tragédia de uma história que não deu certo. E histórias que dão errado como tal, repetem-se em silêncio nos apartamentos soturnos.