Tudo estava certo demais para ser real; por isso então que eles caíram por terra, e quando o tempo enegreceu, o inferno subiu para uma guerra.
O vento gritava pelas esquinas e cheirava à desgraça. Quando grandes fendas abriram-se no chão, o medo saiu em disparada, atirando para todos os lados.
Começou a chover sangue, e os raios foram caindo, os trovões ecoavam e lá no fim o sino badalava o fim da vida.... eles logo chegariam.
Quando pode-se escutar os arrastados de seus pés, os gritos ficaram estridentes e tudo transformou-se em fuga.
Eles chegaram devastando a vida, sugavam o amor, e como animais endoidecidos, mataram tudo vivo. Somente os corpos restaram para a história, e o passado tratou de recolhê-los.
Então chegou a dor, gemendo e se arrastando, para avisar que a morte vinha logo mais buscar os que lutavam e resistiam.
Quando ela chegou, tratou de ceifar os sobreviventes pouco a pouco, percorrendo cada rua. E quando foi-se, levou consigo a dor e o medo, suas eternas sombras.
Acabada-se a vida e devastada toda a cidade, os demônios já satisfeitos, voltaram para suas tocas sonolentos e sorrindo com a face desfocada e possuída pelo mal. Era chegada a hora de o vazio fazer sua parte e espalhar o seu manto maldito pelos caminhos e estradas, para que eu pudesse finalmente caminhar por eles e reinar, como agora o faço.

Eu fujo das luzes do dia que me fazem enxergar o fim da graça de viver, porque eu somente quero adiar o final.
Todas as portas fecham-se repentinamente e eu encurralada, corro para o quarto escuro onde abraço meus medos e posso gritar sem que ninguém ouça.
Eu evito as pessoas e de andar pelas ruas, porque tudo perdeu a cor e quando eu caminho, posso sentir ninguém me notar.
Estou vazia como o céu nublado, e fecho os olhos para a vida. Enxergo a realidade perseguindo-me nos espelhos, e desesperada os quebro, os cubro, e renego tudo aquilo que me lembre que estou viva.
Desejo que o mundo silencie pela minha dor, ou me deixe escapar para fora dele. E que se calem todas as vozes que me pedem para ficar, pois eu fugirei da vida. Já estou com a cor desbotada e certa, para escapar.
Naquela noite, mais uma dose do vício, e um pouco mais de dor para mim mesma. Já tão acostumada e controlada somente por uma voz, a doença se espalhava certeira pelo sangue, e eu mesma podia ouvir os estilhaços do resto do meu coração caírem lá dentro.
Naquele momento em que eu desfrutava de meu martírio, eu esperava que você pudesse saber de meu amor, que ao menos me enganasse fingindo gostar.
Dava meu sangue para ao menos uma noite você me iludir; eu vendia a alma por ao menos uma chance.
Mas tudo era somente desejo, pois você estava longe e não podia sentir o que me causava. Tudo em vão pois você já não se lembrava mais de mim; e o tempo a a distância foram meus assassinos finais naquela noite... que insiste em se repetir.
Eu deslizo pelo assolo de minhas esperanças,
que de tão desgarradas de mim mesma, tornam-se outras armadilhas.
Eu batizo e patenteio mais um fracasso e o guardo no fragalho coração,
que de tão repleto de dolência, esquece-se quase sempre de bater.
Eu sangro diversas tentativas,
que de tão dúbias, transmutam-se em espinhos cruéis e diários.
Eu choro o meu devir real,
que de tão comum e desvairado, faz que no fim das contas eu permaneça só.
Eu, que de tão devastada, fracassada e enfraquecida,
acabo por viver na morte, e muda, gritando em vão pelo inestimável fim.
Morri mais uma vez, e quantas vezes fui acertada pelos mesmos punhais cruéis. Tantas lágrimas que secaram em meu rosto contam a história de meu coração quebrado, e desde que o rasgaram, ele bate cansado.
A velha raiva vem à tona, o mesmo ódio corre nas veias, e se  fortifica, e me queima a alma como o fogo do inferno gosta e costuma me possuir.
De meus olhos vertejam sangue e desespero, mas ninguém os enxerga em meu olhar. Meu corpo coleciona assassinatos, acumula dores, e todas as palavras estão guardadas como espinhos lá dentro.
Eu sou um poço de mágoas, e a velha memória amarra-se aos episódios mais sôfregos, e guarda os tantos rostos que me mataram, seus olhares e os seus ditos.
Minha criança morreu cedo, mas antes conheceu as primeiras tristezas  e me deixou de herança toda a revolta engasgada no peito.
Em alguns momentos eu fui conhecer o amor e a alegria, mas achei-os tão deslocados em mim, que acabei resolvendo refletir se eu os queria, e por pensar demais o precipício me alcançou primeiro, e mais uma vez eu morri.