Engulo pela última vez minha dose de você enquanto decido como tirá-lo de minhas entranhas. Decido que preciso de um pouco mais de morfina para seguir em frente, fingindo talvez que estou curada da praga.
Agora eu caminho pelas ruas afogada num  coma escuro, e não há ninguém mais aqui além de mim mesma, eu caminho sobre as calçadas vazias de esquinas caladas.
Essa doença que é você, já estupidamente me fez infértil. Eu já fui tétrica demais, e cansei de escrever sôfrega sobre você, e de ser sempre em vão.
Agora, a mazela se vai de meu sangue, meu coração voltou à bater  em seu compasso e minhas feridas se fecham.
A doença caminha e me encaminha para o fim, enquanto o vazio transborda, as cores se apagam e você se vai... deixando somente a cicatriz perpétua de seu desamor. Não sou mais enferma, mas garanto que um fiasco de sua praga permanecerá irreversível em mim.
Eu mesma enxergo o que tu me causas, eu vejo tu me estenderes a mão para atirar-me ao precipício. Apanho de teu amor, que me trata, sem culpa, como um verme que te mazela. Estava eu, enterrada no fato de não tê-lo, quando você, mesmo sem querer, fez-me sangrar pelas mesmas feridas.
Então sou para ti um corpo morto, que de nada vale senão, para tirar-te a paz? Dizei-me pois; se sou para ti tão inválida, por que então me torturas com juras cruéis, como se estivesse à exumar um cadáver que outrora repousava em seu leito de morte?
Tão falso negativo és tu, que chego ao ponto de perguntar-me se realmente existes, ou trata-se somente de um jogo maquiavélico que criei para mim mesma.
Pisa, distrata, esnoba e esquece.Mas pior mesmo que ser teu verme e distração, é ser aquela que sofre em vão como uma desgraçada.
Vagar por ruas soturnas como para abster a solidão que afoga fatalmente num enleio, os resquícios de vida que lutam no meu peito.
Arrastar o espírito morno por noites sôfregas, em tentativa de fugir do desatino que expande-se em disparate pela miúde lucidez que corre em minha mente.
Minorar a dor com gritos somente silenciosos e errôneos, por assistir à vida correr pelo tempo indiferente aos meus anseios de à ela pertencer.
Trata-se do declínio de mim, que nada tive e não tenho senão pois, ilusões e dor, que tais mantiveram-me à caminhar pela penúria da vida, em penumbra num último ímpeto mortal.

És o rei mandante desta minha doce tristeza, que deveras, eu me deleito ao desfrutar. Vejo-te como a maré que invade as areias brancas, que como tais são afogadas pelo sal do mar revolto.
Tu és a navalha cega que me corta aos poucos, e fazes parte da terra que suga meu sangue derramado. Tenho-te no mais profundo grito que resguardo no coração, para ter sempre uma dor em pauta que eu possa sofrer.
Perpetua-te em minha dor como quem nada quer, e transforma-se em espada que desfere golpes débeis em meu coração. Aos poucos, num arrastado, transforma-se em agulhas que ferem-me, e pronuncias palavras que me são como espinhos eternos. Pior que todas as dores que tu faz-me sentir é o teu silêncio cruel; tua indiferença é o meu calvário.
Estão além o tempo e a vida, e tu segues com ela levando o destino adiante. Enquanto o tempo corre e as coisas passam, eu permaneço à teu dispor para ser retalhada pelo amor que tu não sentes por mim. Mais eterno que meu amor por ti, somente mesmo o meu sofrer.