Desconheço quem fui a vida que mantinha, já que agora, em todos os lados que olho enxergo outra de mim empurrando-me ao precipício. Eu já não sei quanto o tempo vale e por que ainda passa para mim, que perdeu-se à tempos.
Todos aqueles com quem contava estão distantes demais, e não podem enxergar que meus olhos mentem quando digo estar bem, todos eles já não se interessam em procurar na minha voz algum resquício que denuncie meus verdadeiros medos.
Eu acordo para a morte sentindo-me quebrada em pedaços perdidos pelo mundo e sendo incapaz de achar os caminhos de busca. Eu escondo num sorriso a dor e o medo de ver minha própria sombra desejar me enforcar.
Estou tentando vomitar minha realidade, querendo no desespero que um único coração nessa imensidão devassa sinta minha dor, eu só quero dar um pouco de mim.
Fui tão traída e abandonada, estou tão destruída e perdida, que sei que tornei-me somente a distorção de um reflexo num espelho quebrado.
Assistia o tempo com órbitas enevoadas, fitando o vazio na esperança de enxergar ali qualquer ideia fugaz, que trouxesse de volta toda a dor que eu antes sentia. pois ela me alimentava com o ardor necessário para ainda, estar disposta a sangrar das mesmas formas distintas que tanto amei, que tão a fundo eu já pertencia.
Estas minhas máculas que contavam minha história estiveram por tempo, querendo apagarem-se, e afugentada momentaneamente, minha dor correu evitando minha fase ilusória. Mas eu, tão desesperada, e deveras, ainda a tempo, quis novamente cair em seu regaço, e perdida em meio àquela vida que não me pertencia, gritei pelo vazio e ele me ouviu. Agora que estou com ele dentro de mim, aguardo somente a dor e a morte, para findar-se esta ilusão.
Por tanto tempo sofri sem nada ter em troca, tanto desgastei-me ao ponto de crer que estaria infértil por toda minha eternidade, que agora, por algum motivo a dor se esvaio tão repentinamente que tão somente poucos rastros sobraram para realmente dizerem-me que vivi desalmada na sombra de um amor infeliz.
Uma parte de mim com você ficou, e esta, morta e sepultada, somente será um pesadelo. Mas não sei como explicar como foi fácil o vazio ocupar o seu lugar em meu mórbido coração.
Tão devastador você foi ao longo dos dias, infiltrando-se  e tornando-se minha doença, e tão friamente simples foi embora de mim deixando um vão. Ainda não consigo explicar a mim mesma como toda minha dor foi banalmente apagada como se nem a mim mesma tivesse servido.
Agora desfila à frente de mim, a iminência de que meu corpo terá um novo motivo pelo qual sofrer. Algo me diz que tudo está para repetir-se talvez dessa eu não sobreviva. A dor permanece comigo pelos mesmos motivos banais pelos quais ainda hei de matar-me.



Somente o vento conversa comigo em sussurros por entre a brecha da porta. Os ponteiros continuam andando no ininterrupto tic tac. Os sons permanecem, a vida continua acontecendo lá fora com as cores, com as emoções, mas aqui somente o vazio tem permissão para ficar. O vaso de flores murchas já não é mais enfeite, os lembretes esquecidos na mesa já não me fazem lembrar de obrigações. Eu me protejo com as cortinas fechadas das luzes que me ferem, eu me deixo jogada alheia à vidas que não pertenço, nada além de vazio. O vão veio me dizer que estou em coma, à espera do tempo para curar.