Eu vi o mal triunfar e o amor morrer no mesmo sonho em que escolhia pertencer às sombras. Numa dança de morte soltei meus últimos suspiros enquanto à passos negros caminhava para meu próprio fim.
Pela última vez recordei-me do beijo ardente, do corpo quente, que me mantinha viva num sofrer infindável, mas a música já terminava e a lembrança se desfez.
Fui impregnando em mim as notas finais, do violino que já cessava quando o último toque de piano ecoava no vão de minha alma.
Eu dancei para a morte num ritual sangrento e doloroso, para acalmar a dor de minhas veias e queimar num último fogo, até que ela viesse me buscar.

1. Estou farta de minha alma nunca estar sóbria ocupada demais em sofrer por amor.
2. Cansada de acordar todos os dias para as mesmas coisas e com as mesmas dores, carregada de motivos inválidos que fazem-me perder tempo.
3. Não tenho mais força alguma para aceitar ser escrava do tempo, à mercê de que ele cure as feridas que me abrem o coração.
4. Eu já não gosto mais de escrever sobre minha dor de amor, eu estou farta de mim mesma, do que sou hoje e do que sinto, vergonha por estar de pé e não saber qual direção seguir.
5. Preciso fazer meu coração aceitar o que minha razão já sabe, eu sei do que preciso, sei quais demônios devo matar em mim, mas não tenho as armas.
6. Eu estou cansada de me sentir em pedaços, de não ter remédio para cura, de cair na mesma teia precipitando-me no caos da mesma armadilha.
7. Não quero cair outra vez, quero gritar meu desespero, mas não quero que ninguém ouça, quero somente partir para o alívio do vazio. Deixe-me partir e ajudem-me com a ida!
De repente, todas as coisas desfeitas acolheram-me, estou com as mãos fartas de ilusões, meu coração sufocado de falsas promessas. Sinto nojo, sinto ódio de todas as pessoas, a amargura me possui, nada me satisfaz mais.
Eu estive em busca da verdade, mas quando olhei ao meu redor enxerguei mentiras, e continuo a enxergar as falsas tentativas que alguns esforçam-se em ter para iludir-me.
Nunca acreditei em amor algum, agora faço questão de não só não acreditar como de odiá-lo. Não tenho assunto para conversas, não tenho simpatia para agradá-lo, não tenho humor para fazê-lo rir, na verdade eu não passo de uma sombra cinza, amargurada, desalmada, que profundamente aninha a noite em seu coração.
Eu sou uma desistente, egoísta demais para compartilhar de meus monstros, vazia demais para tentar explicar o que estou fazendo, porque simplesmente não o sei; eu sou uma desgraça sem tamanho, por isso sucumbi e acabei de fechar-me em meu túmulo, tranquei-me em meu mundo nefasto de coisas tristes... e é assim que estou seguindo em frente, com meio coração quebrado e ferido dentro do peito, de órbitas enevoadas fitando o vazio. A vida simplesmente irá passar.
Eu tenho lapsos de gritos enquanto o ódio ferve e vai queimando nas veias. Somente desejaria que pudesse despedaçá-lo para pôr em você toda a dor que está explodindo em mim, a fim de explicar que o amo demais, e que por isso o odeio; especialmente o fato de existires e de isso ter inexplicavelmente total influência sobre mim.
Eu me parto ao meio, e você não me ama.
Quando cedo espaço ao vazio e escolho não escolher, a outra de mim que te ama por fim vence o orgulho e se importa como uma tola, e eu sou empurrada às pressas para o esquecimento... mas sou eu quem deve viver, eu que não quero amar, e não a outra que deseja sofrer.
Eu me parto ao meio, e você não me ama.
Eu queria matá-lo de mim, com minhas próprias mãos arrancá-lo de seu lugar, queimá-lo no fogo que hoje me queima. Eu queria machucá-lo até que você tivesse a capacidade de me matar ou de se matar de minha vida.
Estou sendo consumida pelas dores diante de seu trono, e eu te odeio por estar assistindo apático enquanto me corto nos espelhos tentando beijar teus reflexos.
Você me parte ao meio, e não me ama.
Minha loucura rasgando gritos de piedade, essa doença crescendo com raízes para me estrangular. Então eu me parto ao meio, e você não me ama.