Todo o inferno está me partindo ao meio, fazendo-me desejar que o sangue até de quem mais amo se derrame por terra. Eu tenho odiado todas as palavras não ditas, e a gélida indiferença que come minhas entranhas; eu odeio todo o amor que pulsa como verme na caixa sucumbida em que se transformou meu corpo.
Estou morta, continuando a viver e queimando com uma desgraça infinita no purgatório na terra, e no entanto ainda não sei como pode haver qualquer resquício de amor inútil em um podre coração como o meu... cada batida é uma navalhada a ferir meu orgulho.
Dane-se cada um e a todos, que tenham despedaçados seus corações imundos como tive o meu; tornarão-se a prova desprezível de que eu afoguei o meu amor numa banheira, repleta de todas as lembranças das quais você pertenceu.
Eu o matei; com minhas próprias mãos, e espero que agora isso doa tanto quanto ou mais até que o mundo possa sentir nos seus gritos a minha dor e o sabor de vingança que tem o meu sangue.
Tenho procurado um lugar dentro de mim para te pôr e esquecê-lo, apesar de você estar em todos os lugares; talvez seja mesmo em vão empurrá-lo quando eu não sei no que quero que você represente para mim.
Qualquer espaço onde tudo sobre você possa estar em mim sem que me tire a vida, de algum jeito que eu possa suportar sem que tenha de deixá-lo partir.
Estou à caça de um caminho, uma morada que te explique habitando em meu ser, e que possa sobretudo aliviar esta dor que me rasga por tê-lo aqui, mas não saber o que você quer de mim.
Somente me diga se poderemos viver lado a lado sem que isso precise ser um martírio, diga-me se posso torná-lo real, diga-me se terei de arrancá-lo e morrer, se terei de aninhá-lo em meu coração e te amar por nós dóis, ou se por ventura, eu poderei existir com você e uma história num lugar que tenha sentido para todo esse vazio.
O caos reina! Esse nosso conflito parece se arrastar para além do que nunca planejamos, você nasceu em mim e agora age como se isso não importasse. Eu me pergunto como vou viver com este jardim de espinhos dentro de meu peito, enquanto você sufoca todos os meus espaços.
 
Quando bate a meia-noite e as sombras bruxuleantes dançam nas paredes, os dois corpos se encontram no caminho do desejo e tornam-se amantes, o fogo vai acendendo a luxúria na pele que arde de paixão.
Os gemidos falam a língua da perdição, daqueles toques que caminham fulgurosos por toda parte saem fagulhas, dos beijos ardentes brotam a urgência de entregarem-se num fim.
Tremores vão invadindo as veias, percorrendo como cobras até chegarem em seu êxtase, e irrompendo como vulcões nos olhos que se olham. Explodem as sensações nos corpos que vão queimando como as velas que assistem à orgia, o mundo já não é mais mundo senão um borrão no qual somente os amantes existem.
Então eles se sussurram que querem se ter num infindável arrastar de noites, e que por toda eternidade que dure deixarão que seus corpos sejam a extensão de suas almas, como num pacto selado no prazer.