O destino ruiu como o chão de terra seca do deserto, ao som da serpente que rasteja venenosa para sua cova. Dois caminhos que se separam dolorosos deixando para trás a dor que grita de seu coração; como o frio do gelo, as vidas foram quebradas, o amor foi para o escuro apartado, longe e enterrado numa maldição.
   Poderia ter sido, mas não foi. Não tem sido fácil esquecer, mesmo que deveria, e pior que a certeza do não é a dúvida do talvez. Saber que hoje poderia ser diferente do que é, torna-se meu calvário diário, o mundo é um estandarte de escárnio de minhas falhas, as lembranças são fantasmas que noite e dia me perseguem.
   Hoje são dois rios separados, o amor jogado ao vento, enquanto o ódio ainda se importa e a indiferença me faz companhia. Nada do que eu possa fazer mudará minha derrota antes da luta, estou vendo os dias cantarem minha solidão e o tempo levar, pouco a pouco, o resto de esperança que eu ainda tinha dessa história dar certo.

   Nos vales distantes, o cavaleiro galopa em seu cavalo negro, deixando rastros frios de desilusão pelos caminhos sombrios e silenciosos. Pela noite soberana, o cavaleiro corre em fúria e sem destino, o coração pesado, insistindo em lhe doer o peito.
   O vento sopra por sua capa de solidão, e dançando sorrateiro, vai tocando os arvoredos que gemem. O vento num sussurro, trás de volta a solidão do cavaleiro ao castelo.
   Do outro lado, presa no castelo, ficou a donzela perdida, que verte lágrimas de despedida enquanto sofre com a partida de seu amor. Vestida de tristeza ela esmorece, com o coração sangrando no peito, enquanto a chuva se confunde com suas lágrimas e os trovões ecoam o fim de uma história.
           Eis que o céu chora e se vinga de tamanha dor!
   O sol esqueceu-se de nascer, a esperança fugiu afugentada pelos raios. Enquanto ele foge, ela permanece, e a distância que os cobre vai sufocado-os, e por mais que durmam não descansam, por mais que corram não se alcançam.
          Eis que o céu ainda chora, e se vinga separando os dois!
   Livres da paz, estão finalmente prontos para a batalha, desbravar a guerra da perda, ferir-se dia após dia em busca da redenção, da cura, da liberdade. Porém a guerra está perdida, a redenção é o começo do pesadelo de uma vida repleta da dor do amor.
    Eis que o céu chorará pelo resto de suas vidas, e viva o maldito amor!

   Espero que haja perdão para minha alma, que de alguma forma, essa minha tristeza não seja tamanho pecado que me condene ao inferno. Não havia ninguém lá quando eu menos mereci e mais precisei, eu estava com minha própria solidão, no escuro da dor, e agora- mesmo já chorado todas as minhas lágrimas- ainda dói imensamente e eu não consigo de triste deixar de ser.

   Eu guardo porque sei que não entenderiam, eu finjo porque é o certo a se fazer, mas dentro de mim já não há esperança alguma que mude o gosto de minha vida amarga. Essas feridas que pulsam não cessam, e o vazio ocupa tamanho espaço em meu peito porque sou agora apenas como uma melodia frágil e intocada.

   Pobre diabo de coração, inconsolável é tua dor e esta mágoa que te afoga é sem remédio. O corpo que te vela já não guarda repouso, dentro d'alma falta uma paz.
   Estes passos, que vagueiam cansados pela solidão, carregam oh ti, pobre coração, por um estranho oceano de vazios.
  A fera que corre em teu encalço devora todo o amor, e a tristeza, furtiva, rouba tuas lembranças, coração desvalido.. ouça meu suplício, e pare de bater.