Ao longe algum piano reverbera notas fúnebres tal qual esta noite, a lua observa soberana a noite cantar sua canção lírica de solidão. De algumas janelas estendem-se os gemidos e o cheiro de sexo, enquanto que de outras a névoa envolta de tristeza conta que ali sofre alguém. Enquanto uns ardem de vida, outros esmorecem na terrível morte da esperança.
    Os corvos permanecem empoleirados nos galhos que gemem, e o vento desfila livre em assobios de desdém. As folhas estão vivas, uma delas roçou meu braço que num arrepio da pele, desejou novamente ser tocado.
    As almas cantam, eu ouço, as almas cantam e choram em ecos, em sussuros e soluços, o piano reverbera a dor, o violino rasga a noite gritando morbidez.
    A solidão se aproxima de meu corpo, me cobre com seu manto doce, eu choro por mim mesma enquanto nada lá fora muda. Eu calo em meu silêncio gritante, porque o mundo não pode me ouvir.

 
   Meus olhos injetados de sangue percorrem as ruas, em desalento, arrasta, a tristeza por sobre meus ombros. Meu coração em desalinho bate em descompasso, e sem rumo minha alma vagueia na solidão de todas as noites
   Num sopro de alívio de sufoco, eu sussurro meu último adeus, marcado e manchado pelas lágrimas finais de uma história sem final feliz. O vento toca minha alma fria enquanto o mundo fica distante...

   Meu coração doí, eu posso senti-lo sangrar, sua dor me pertence, sua morte é a minha. Eu estou sôfrega como um violino, e não ouso declarar mas está claro que a escuridão me persegue.
   Por mais que eu corra estarei eternamente presa numa terrível câmera lenta, engasgada de gritos internos, encurralada pelos meus próprios medos, e não há mais fôlego em mim para eu me fazer ouvida.



   As lágrimas secaram,o coração congelou, dura como rocha eu construo minha muralha para esconder o holocausto dentro de mim. Apesar do  sangue  ainda  correr  nas  veias, apesar disso  eu quase  vivo- já morri.
As feridas já se fecham, ficam as cicatrizes, porque estas permanecem. Apesar da dor já não doer como antes, ainda dói o suficiente todos os dias, apesar disso eu sofro como sempre sofri.

   E agora, tudo se foi, de nada valeu, porque para cada gota de felicidade tenho um mar de tristeza, e o que fica é a única verdade: o fim. E agora, virou cinza e apagado, porque eu virei uma página vazia, e rasgada, fui arrancada do livro que eu queria pertencer.
   Desculpem-me todos, mas eu demorei a perceber que sou a folha rabiscada, repleta de rascunhos que não interessam à nenhuma história.

Repito essa foto num post meu porque eu realmente gosto dela.