O sol forte castiga do alto céu azul desses dias, o asfalto da estrada tremula e pega fogo zombando do corpo que caminha -embora cansado- mas determinado, para o seu destino final. Os olhos percorrem os matos altos que dançam com o vento que brinca por entre os fenos, por lá perdidos, brincam também os pensamentos, que soltos como as borboletas e os lobos, atingem com delicadeza e selvageria.

    Um deserto que se estende à frente, e uma moto que passa apressada rasgando o vento. E toda uma vida que foi guardada numa mala, todos os amores esquecidos e as mágoas deixadas para traz. Os pés já cansados esforçam-se por mais um passo, pela luta de fugir do seu passado, as gotas de suor que outrora de lágrimas foram, banham o rosto iluminado pelos raios daquela tarde de adeus.

   A sombra de quem caminha se estendia ao lado pelo caminho, nessa jornada de dar as costas aos rancores e dizer olá para o esquecimento. A poeira que se levanta vem e vai levando embora tudo o que já foi, para zerar as lembranças, para restaurar o peito, para minorar a dor. Mais um passo dado enquanto a tarde cai, e o crepúsculo chega com a amiga solidão, para em meio à uma clareira e sob a luz de uma fogueira, sob a vigilância da lua cheia brilhante, vestir-se com o manto da solidão, enquanto as gaivotas já se despedem com os últimos cantos e as estrelas param para ouvir a história de um coração viajante. E este coração adormece para o descanso de poder caminhar na busca de uma morada distante, e diferente de tudo o que o fez sofrer. Um coração que caminha para nunca mais voltar.


    Sabe Deus que tentei, e a dor que sinto agora e como o peito explode num hematoma magoado, o sangue pulsando numa cicatriz. O céu é testemunha do quanto me tem custado um sorriso dar, e não saber onde cheguei com os olhos vertendo de ódio, dor e amor. 
    Como as cordas de um violino minha tristeza têm sido, afinando e desafinando na sinfonia dessa esperança que insiste em morrer.
    Minha realidade são meus sonhos, e os meus sonhos são pesadelos, e apesar de tanto tentar, fracassei. Sabe Deus que tentei ir adiante, mas meus pés mantiveram-se firmes e o meu coração -impassível-, teimoso, não te abriu a porta e eu fracassei.
   Eu fracassei, eu fracassei...



    
     Fria.
    Assim como a chuva grossa que desaba lá fora,  assim como meus pés, mãos e lábios, como o vento de desolação e abandono que percorre a espinha do meu corpo. Assim me disse os sussurros do vento noturno, -daquela noite em que, enfadonha, andei o mais rápido que pude na tentativa falha de afugentar os medos meus- que assim eu deveria ser.
    Falha.
    Inútil tem sido correr dos medos pois eles se findaram em mim, e eu assim me tornei o próprio medo. Sou morada do desassossego, sou morada de uma solidão esmagadora. É um fardo pesado segurar meu calculismo, mas as mágoas e rancores são combustíveis fortes para essa árdua defensiva. Sou morada da dúvida, e mantenho guarnecidos os sentimentos para guarnecer o pouco do resto desse coração que sobrou.
   Gélido.
    Assim se fez o porto em que estou ancorada, a casa que ninguém deseja morar, o coração apodrecido que à ninguém deseja pertencer. É como um corpo sem vida vestido para viver, e de vivo e quente que restou em mim, somente meu sangue amargo que faço escorrer... Para a morada esquecida onde antes morava alguém chamado Amor.


    Eu vejo que estive presa num covil de cobras e o veneno desde então a percorrer minhas veias tornou-me animalesca e feroz na escuridão. Estive vestida de solidão e de um mal que me mantinha amarga como o veneno da dor que eu bebia, amargo como o sangue que de mim derramei.

   A minha pele foi o manto do pecado do meu corpo, e os meus olhos as janelas dessa alma desvalida. Em meus passos deixei a marca desse nome triste, e os caminhos que percorri foram árduos e tensos, onde o meu amor foi o que menos valeu, e a minha entrega a que mais sofria.

   Nos lábios vermelhos e olhos negros dessa solidão eu fui pecado, eu fui pagã, e nem de amor mais eu sabia.


    A dor no peito eu não reconheço,
    Esse vazio estranho de lembranças.
    As lágrimas estão ardendo como chamas,
    Encharcada na raiva, eu desvaneço.

    Incapaz de gritar, eu sufoco,
    Não luto, mas vou aceitando,
    E quando lembro, eu morro,
    Por mim mesma, estou chorando.

    Aquele banco, praça, canção.
    Aquele tudo de nada, solidão.
    O dia começa se arrasta e finda,
    E a alma, errada, desafina.

    O meu passado tornou-se presente,
    Minha loucura em razão.
    E o coração tão cansado, doente,
    Vira poço amargo de solidão.