O silêncio da solidão é barulhento, como se os ponteiros do relógio e o seu tique-tac fosse obra de um demônio zombeteiro, como se a imobilidade das paredes causasse tremores.
    É nefasto, talvez porque esse terror já me seja comum, mas nunca antes conhecido de tal maneira. Nunca antes o coração martelou tão forte a ponto de doer e me provocar náuseas.
    A cama tem sido um leito de confissão, exceto quando arrasto meu corpo doente e trépido de frio, um repouso das obrigações morais e do convívio humano, uma possibilidade  de despir-me de qualquer papel e deixar as lágrimas escorrerem de cansaço. Sem planos, sem futuro, apenas uma doce e lenta entrega à escuridão que tanto espreita.
     Não há a quem confessar, se não à estas insignificantes linhas a qual me debruço e ninguém as lê. Acho que talvez de todas as vezes, essa é a mais profunda e arrebatadora condenação!
     A comida não tem mais gosto algum, enquanto respirar é quase sufocar, o coração pesa como chumbo e eu só desejaria ser feita de aço e pedra a fim de suportar a verdade insuportável. Não há bebida, não há cuspe, nem corte, nem grito algum que suprima o veneno injetado pelos segredos, a verdade é mortal. Pois num momento você ama tudo que conhece, e conhece tudo que ama, logo depois você não tem mais certeza alguma, tudo o que você tem se resume à nada, o que resta então? E quando o único sentido que se enxerga é que nada possui sentido?
   Eu não reconheço aquilo que já amei, não reconheço mais quem eu amei, as coisas e as pessoas já não são as mesmas, e pior do que essa perda é perceber que eu não mudei junto, que estagnei, o mesmo disco arranhado, o mesmo papel manchado, o mesmo peito sendo um porto de ancoragem da angústia. 

Eu vejo a tocha que todos devemos carregar 
Este é o mistério do quociente 
Sobre todos nós, um pouco de chuva deve cair.

    
      Eu tenho contido minha ira segurando as palavras que gostaria de proferir, tenho contido as lágrimas que gostariam de rolar de meus olhos, eu tenho contido a veemente dor no peito e a terrível nostalgia, eu tenho me contido mas me segurar é uma dor segura de se conter.
      É uma trabalhosa tarefa fingir uma alegria inexistente, fingir ser mais um quando não se é nenhum em meio ao todo. A solidão que se manifesta quando se está cercada,  e empoleirada em meus ombros, gargalha do meu teatro social.
    
    Porque o tempo passa se arrastando e traz a verdade  em seu encalço, e atrás dela o desalento que vou sentir ao descobrir que tudo isso é uma igual ilusão. É como se a vida me quebrasse as pernas numa areia movediça enquanto eu assisto todos se moverem em diferentes direções. É como se presa à arames farpados, eu lutasse e aumentasse as feridas, como se o tempo-espaço estivessem dobrados ao meio e eu presa num poço de piche.
    Talvez eu esteja aprisionada no limbo e não consigo me desvincilhar dessa consciência terrível que é o viver. Talvez eu esteja num quarto trancado e nem eu nem ninguém mais possua as chaves para abrir.


 
    Ensejo dos lábios meus, minha saliva tem o teu gosto, quero os dedos de tuas mãos entrelaçados aos meus.  És a cura ao meus olhos, és o que vívido pulsa, o que de bonito lateja em meu coração. Estou enamorada por tuas costas largas e teu sorriso solto desde que meus olhos se deitaram sobre ti. Então desde que te tenho e me deixei à ti pertencer, o corpo e alma gritam loucos para te ver, doidos para ter.
    Eternos e lúgubres instantes quando o brilho dos meus olhos encontra o brilho dos teus, e nossos corpos sorriem falando a língua do amor. No dedilhar das cordas do teu violão o peito meu compõe canções de juras de amor, a pele marcada, ardida de paixão que trepida ao simples toque teu. E queima, e estremece, é como bicho solto e selvagem  esse amor feroz, que atroz, me devora de uma saudade endoidecida. Mas amor, amar-te dói, mas é para isso que vivo, é por isso que respiro... para em teu beijo verter todo o meu ar vital. 
   És aquela brasa que reaviva o fogo, és o sopro do trovão, és o sol que vence as nuvens, és o pulso do coração. Estais em tudo, és tudo...  A poesia daquela música, aquele banco da praça, aquela lua de prata naquela noite suave e a brisa doce que tremula tua camiseta.
    Amor, és tudo! Não sou mais senhora de mim desde que és meu senhor, mas amor, és lindo, e o mundo pertence a nós.


Dedicado à R.
  

    Nunca passa. Ainda que eu me esqueça, ainda que eu sorria, ela nunca vai passar. Ainda que amanhã eu  acorde e já nem recorde, ela logo voltará. Nunca passa, nunca passa porque Ela sou eu, e eu sou parte dela.
    Ainda que as lágrimas adquiram voz e gritem até assombrar  o mundo, ainda que eu escreva para extinguir a dor até meus dedos sangrarem, ainda que eu corte quem me corta, ainda que eu bata quem me bate, ainda que eu mate quem me mata... ainda assim nunca vai passar.
   Não há choro que console, não há raiva que reprima, não há dor que se amenize, não palavra que defina. Não existe nada na Terra que explique o tamanho e a fundura do buraco na alma, e não há percurso que eu percorra nem morada que eu construa que me proteja dessa miséria.
    Nunca passa! O tempo, até ele tem passado, mas Ela nunca passa. Não há um dia em que ela não me alcance, não há um esconderijo em que ela não me descubra, não felicidade que ela não esmague, não há calor que ela não congele, não há amor que ela tolere, não há paz que ela não perturbe.
    Nunca passa! Essa tristeza demoníaca e satânica que me humilha, zomba, destrói e me arrasa; essa personificação animalesca e amaldiçoada em forma de mulher, nunca passa. Ela nunca passa, nem nunca passará, nem quando as trevas da morte e do inferno a acolher, ela nunca vai passar.
     
 

    A fervorosa cor pintada em meus dias, a glória toda infinita irradiada num só sorriso. E quando o desejo aplaca o medo, é aquela mão que preciso segurar, naquele peito quente me recostar. Quando a tarde quente me tira a paz, quando o relógio maldoso se apressa em correr, eu só preciso vislumbrar o mel dos olhos para escorrer, para o mel daqueles lábios e nos braços abraçados me segurar.
    O sopro de vida do meu peito, a força vital que me mantêm em pé nas notas de uma voz grave. E quando por uma desventura aquele amor me magoa, são os braços firmes e o olhar nos olhos que me desfaz. A magia que ele faz acontecer, é um mundo que nenhum outro fez nascer, pois até mesmo o silêncio com ele diz tudo que outrora calou.
    Porque vê-lo caminhar para mim é sentir os segundos se arrastarem, e segurá-lo com meu corpo frágil é segurar meu mundo inteiro e me sentir forte. Porque amá-lo é um exercício de poesia, beijá-lo é beber do fio da vida, envolvê-lo é estar nos braços da paz.


Dedicado à R.
    Eu escrevo poesia triste num frenesi danado chamado tentativa, na agonia do riscar da folha tirar um pouco os riscos que a vida tem feito em mim. Porque os rabiscos são os ouvidos que suportam meus gritos e são as mãos que ainda conseguem me tocar.
    Eu sufoco para riscar, eu risco para sufocar. Eu escrevo para não morrer, tenho escrito para viver. O que resta de coragem na alma, -quando borro a página-, são as lágrimas que não pude conter e desaguam como uma chuva triste, e como a água, a tinta borra o papel e a maquiagem manchada.
    Não são as paredes do quarto que me protegem da gélida vida lá fora, mas sim as linhas deste caderno que me amarram os pulsos me mantendo em pé. É no branco das folhas que procuro a paz, é no azul das linhas que vislumbro o horizonte.
   O meu grito permanece silente, mas os meus poemas estão aos berros, minha poesia é triste e crua, mas é minha, e é assim que sou. Se você me ler como livro, verá que algumas páginas estão rasgadas, mas que a tinta sussurra vida, que implora viver.


      Chuvosa noite que se alonga e se derrama no parapeito da varanda, uma gota  molhando é uma lágrima que derramou-se com o nome da distância, com o beijo que apagou-se.
   Tristes são os sonhos dos puros e inocentes que com ternura na paixão- mergulhado o peito nas ilusões-, afogou-se por fim na solidão.
    O peito batendo como estrondo de anunciação, com estandarte no desfiladeiro da saudade, o sangue lateja amor ao coração.
   Chuvosa noite que ainda se arrasta e lava os corpos e molha a saliva, e leva embora o tempo, fica o vento, permanece a ferida.
    O frio que lambe é o mesmo que morde, os faróis que iluminam são aqueles que cegam, e aquele que corre é quem morre ao fechar da cortina.