Nunca passa. Ainda que eu me esqueça, ainda que eu sorria, ela nunca vai passar. Ainda que amanhã eu  acorde e já nem recorde, ela logo voltará. Nunca passa, nunca passa porque Ela sou eu, e eu sou parte dela.
    Ainda que as lágrimas adquiram voz e gritem até assombrar  o mundo, ainda que eu escreva para extinguir a dor até meus dedos sangrarem, ainda que eu corte quem me corta, ainda que eu bata quem me bate, ainda que eu mate quem me mata... ainda assim nunca vai passar.
   Não há choro que console, não há raiva que reprima, não há dor que se amenize, não palavra que defina. Não existe nada na Terra que explique o tamanho e a fundura do buraco na alma, e não há percurso que eu percorra nem morada que eu construa que me proteja dessa miséria.
    Nunca passa! O tempo, até ele tem passado, mas Ela nunca passa. Não há um dia em que ela não me alcance, não há um esconderijo em que ela não me descubra, não felicidade que ela não esmague, não há calor que ela não congele, não há amor que ela tolere, não há paz que ela não perturbe.
    Nunca passa! Essa tristeza demoníaca e satânica que me humilha, zomba, destrói e me arrasa; essa personificação animalesca e amaldiçoada em forma de mulher, nunca passa. Ela nunca passa, nem nunca passará, nem quando as trevas da morte e do inferno a acolher, ela nunca vai passar.
     
 

    A fervorosa cor pintada em meus dias, a glória toda infinita irradiada num só sorriso. E quando o desejo aplaca o medo, é aquela mão que preciso segurar, naquele peito quente me recostar. Quando a tarde quente me tira a paz, quando o relógio maldoso se apressa em correr, eu só preciso vislumbrar o mel dos olhos para escorrer, para o mel daqueles lábios e nos braços abraçados me segurar.
    O sopro de vida do meu peito, a força vital que me mantêm em pé nas notas de uma voz grave. E quando por uma desventura aquele amor me magoa, são os braços firmes e o olhar nos olhos que me desfaz. A magia que ele faz acontecer, é um mundo que nenhum outro fez nascer, pois até mesmo o silêncio com ele diz tudo que outrora calou.
    Porque vê-lo caminhar para mim é sentir os segundos se arrastarem, e segurá-lo com meu corpo frágil é segurar meu mundo inteiro e me sentir forte. Porque amá-lo é um exercício de poesia, beijá-lo é beber do fio da vida, envolvê-lo é estar nos braços da paz.


Dedicado à R.