O silêncio da solidão é barulhento, como se os ponteiros do relógio e o seu tique-tac fosse obra de um demônio zombeteiro, como se a imobilidade das paredes causasse tremores.
    É nefasto, talvez porque esse terror já me seja comum, mas nunca antes conhecido de tal maneira. Nunca antes o coração martelou tão forte a ponto de doer e me provocar náuseas.
    A cama tem sido um leito de confissão, exceto quando arrasto meu corpo doente e trépido de frio, um repouso das obrigações morais e do convívio humano, uma possibilidade  de despir-me de qualquer papel e deixar as lágrimas escorrerem de cansaço. Sem planos, sem futuro, apenas uma doce e lenta entrega à escuridão que tanto espreita.
     Não há a quem confessar, se não à estas insignificantes linhas a qual me debruço e ninguém as lê. Acho que talvez de todas as vezes, essa é a mais profunda e arrebatadora condenação!
     A comida não tem mais gosto algum, enquanto respirar é quase sufocar, o coração pesa como chumbo e eu só desejaria ser feita de aço e pedra a fim de suportar a verdade insuportável. Não há bebida, não há cuspe, nem corte, nem grito algum que suprima o veneno injetado pelos segredos, a verdade é mortal. Pois num momento você ama tudo que conhece, e conhece tudo que ama, logo depois você não tem mais certeza alguma, tudo o que você tem se resume à nada, o que resta então? E quando o único sentido que se enxerga é que nada possui sentido?
   Eu não reconheço aquilo que já amei, não reconheço mais quem eu amei, as coisas e as pessoas já não são as mesmas, e pior do que essa perda é perceber que eu não mudei junto, que estagnei, o mesmo disco arranhado, o mesmo papel manchado, o mesmo peito sendo um porto de ancoragem da angústia. 

Eu vejo a tocha que todos devemos carregar 
Este é o mistério do quociente 
Sobre todos nós, um pouco de chuva deve cair.