Eu to cansada de tentar achar resposta, de reunir esforço para compreender esse teu mau jeito, esse teu desleixo, esse teu devir. Bem exausta para buscar impulso em me atirar mais uma vez nesse amor sujo, de tentativas cegas, e me perder no teu cínico discurso.
   O meu amor está manchado, está marcado pelos erros que tu cometeu. Minha vontade virou pó, agora é cinza de tudo aquilo que me prometeu. Nossos olhos não se encontram mais com o mesmo brilho, nossos corpos não tem mais viço, a plenitude se perdeu.
    Estamos seguindo direções diferentes existencialmente, e direções diferentes no amor. Você, cheio de si, ocupado com os planos irrealizáveis; você, livros e inteligência e altivez; você, tão fechado em si mesmo, em ser o melhor, seu ego tem falado tão mais alto que já não és mais capaz de ouvir minha dor.
   Você cresceu tanto que agora já não me enxerga tentando alcançar tua mão aqui em baixo e quanto mais tu corres e foges de encarar o fim, mais o monstro que eu enxergo em ti aumenta em mim. Você espalha migalhas de um amor miserável e eu vou seguindo, você veste uma armadura impenetrável de não se deixar afetar e eu infame permaneço fingindo.
   Quanto mais eu te peço mais, menos você me dá, e quanto mais eu suplico e lamento, menos você quer ouvir. E quanto mais os outros  eu invejo, menos você tem feito para mudar, e quanto mais eu desisto, menos ainda você tenta salvar.
   Eu não sei o que fomos, sei que hoje já não somos mais. E se um dia houve amor, ficou para traz, porque nos tornamos estranhos num ninho sem paz.

    Eu que cheguei a tal ponto de ser incapaz, de ficar tão difusa e indefesa, refém de mim mesma, demorei tanto a finalmente conseguir gritar e quando tentei, a voz foi insuficiente. A tristeza que nunca foi passageira toma o controle outra vez, mas desta vez foi preciso de muito mais que tristeza para finalmente estar de volta à estas linhas. Enquanto isso, meu corpo quente sente frio, eu tremo com as minhas próprias mãos geladas, mais trépida que um galho seco, retorcido pela dureza da mesma dor outra vez. É quando olho por entre os rostos e vejo um horizonte distante me chamar, ouvindo o som do vento passar como sussurro da verdade.
     É só a solidão chegar que eu visto meu véu de névoa, enxergando os dias como lânguidos, acordando  bem cedo com a dor de existir presa num corpo frágil e doído, enquanto a alma se afoga nas próprias emoções. O dia, a tarde e a noite passam, o que não passa é o vazio desse passar, do não viver e do sentir demais que faz doer.
     A existência do existir só faz pulsar a frustração de estar presa na vida, é difícil estar em minha própria mente, como se os pensamentos fosse névoas espessas e a respiração não fosse fôlego. Eu não tenho coragem, porque não fui feita para este mundo, eu não tenho força porque sou uma alma cinza num corpo fragmentado, eu não tenho sorriso porque não fui feita de cor. São mais alguns versos tristes que pouco vão dizer mais a alguém e que o mundo não irá ler, mas que são o sopro do que sou agora, porque no mais, está difícil existir.


       Eu precisei atingir aquele nível decadente de sofrimento que se vive quando se ama, para então voltar aos tempos antigos de quando eu me guiava cega pela vida. Finalmente chegou, aquele tempo de escuridão esteve à espreita para me puxar pelo braço quando meu sorriso bobo vacilasse. E finalmente me puxou.
       Como se eu fosse espectadora do meu próprio filme de uma história que se repete, e repete, repete. Talvez o sol só apareça para a chuva molhar depois, e os sorrisos alegres para depois apagarem-se com a dor.
       Tenho a alma vagabunda de um velho de bar, meu coração deve se afogar em whiskey, e o cigarro que nem fumo se apagar levando um pouco da minha própria vida. Talvez o destino seja blues, noite e poesia, seja contemplar a vida passar e não poder tocar, como memórias.
     Já vai raiar o sol, mas só para chover depois, chover dentro das expectativas, molhar o que cuidei para ser bonito. Amanhã pode doer menos, mas só para piorar depois e ficar nessa vida de eterno retorno provando do gosto amargo que é a desesperança.
      Depois você volta, mas só para me deixar. Depois você me beija, para esquecer. Você faz feliz, para depois cortar. Enquanto você é o agora, eu sou depois, eu sou quando já não estou mais, eu sou o que não é mais, eu sou depois do que já foi depois.