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      Voltei porque precisei, porque tem muita coisa entalada querendo transbordar, porque preciso achar uma forma de colocar em palavras para mim mesma, voltei porque talvez alguém leia e consiga entender. Eu voltei porque eu confio na expressão, porque eu mudei e passei por muita coisa, porque me sinto transformada e porque espero que grandes mudanças aconteçam em breve. Meu maior medo é que não aconteçam, de ficar presa dentro desse ciclo vicioso e frustrante que tem sido, que parece ser migalhas da vida rindo de mim, como se um gato estivesse no âmago arranhando para sair mas não houvesse túnel. 
      Tem sido dias bem sombrios, dias em que não entendo mais qual o propósito de nada, quem eu sou ou o que estou fazendo, dias em que não vejo saída e me sinto desesperada e gritando por dentro enquanto dou um sorriso jocoso por fora, e como dói e é esforço esboçar esse sorriso amarelo de quem na verdade não está nem um pouco feliz mas não quer dizer pela enésima vez que tem passado por problemas, porque ninguém entenderia, ninguém nunca entende. E aí, o que eu tenho feito e qual a cruz que tenho carregado? Varrer para debaixo do tapete os meus problemas e dores pessoais e colocar nos braços as dores de todos os outros, vinte e quatro horas online e disponível -e quando não, sendo cobrada por isso-, para ouvir as dores dos amigos, suas aflições, dizer as coisas que gostariam de ouvir e depois vê-los irem embora se recomporem.
        Mas o tapete está cheio de poeira, a banheira está transbordando de água e eu me sinto no limite. Cansada, muito mais do que fisicamente, muito mais que emocionalmente, eu estou cansada existencialmente. Estou cansada até enquanto digito esse texto, mas estou me esforçando para colocar para fora numa tentativa de esvaziar alguns milímetros dessa grande banheira inundada que sou, porque eu quero melhorar, quero ter esperança, porque eu não quero desistir mesmo que a vida queira me obrigar a isso todo os dias. Eu me sinto testada a sofrer mais e mais só para ver se terá alguma recompensa realmente de tudo isso no futuro, ou eu realmente ficarei presa nesse loop infinito de nadar contra a maré.
     Carl Jung disse uma vez "A solidão não vem de não ter pessoas perto de você, mas sim de não ser capaz de comunicar as coisas que parecem importantes para você.", mas eu estou aqui ainda tentando, cada um acha seu modo e por anos o modo como encontrei foi este aqui. Tem muita coisa que precisa ser dita ainda e eu não entendo, porque tem coisa demais acontecendo aqui dentro que me deixa desesperada e paralisada ao mesmo tempo, mas eu juro que estou tentando com o meu melhor.

      
          Engraçado como você apareceu quando eu estava com as portas fechadas para o mundo, quando eu estava decidida a estar somente em mim, quando dei por mim já estava em ti e nem sabia. Eu não sabia o meu estado, provar do gosto de estar sem par após um tempo me fez vulnerável e iludida, talvez no fundo disso eu sabia, só não sabia que você iria me enfraquecer.
         Chegou como quem não quer nada, já me observava de longe e de mim tudo sabia, só não tinha ideia do que causaria quando na minha vida pediu para entrar. Estranho como tudo foi rápido e ao mesmo tempo nada saiu do lugar. Como aos poucos a intimidade se firmou, a expectativa cresceu e dos meus lábios se rasgavam sorrisos a cada palavra trocada, meu coração recém machucado logo tratou de querer se doer outra vez.
        Não sei como o amor se alimenta de onde não é regado, pois você molhou a terra mas não plantou a semente. Eu me vi com as poucas frases e o único momento que tivemos para nutrir uma relação que provavelmente nunca acontecerá. Não sei se é amor, paixão, doença, atração ou se tudo isso junto, aliás, com você eu não tenho certeza alguma desde o começo. Não sei como lidar, não sei o que dizer, o que interpretar dos teus sumiços, do teu silêncio, mas quero interpretar muito mais quando você me chama -sem jeito- para conversar com um assunto qualquer. Busco diariamente achar onde cometi o erro para tanta súbita mudança, logo eu que tomei tanto cuidado para não te afugentar, quando no fundo a vontade de ser intensa gritava mais que tudo, aquela incerteza de entrar no teu jogo sujo de indiferença e desapego ou assumir o papel de entregue e arcar com o risco de me magoar.
        Odeio tantas coisas em ti que me pergunto onde foi que achei amor nisso tudo, o que mais me intriga é que não consigo te odiar e esqueço no mesmo segundo tudo o que me diz para desistir, desistir de algo que nem começou. Como é possível amar o oposto, amar algo intocável, amar aquilo que não se conhece?
       Crio momentos em minha mente e revivo as poucas frases e olhares que trocamos na esperança de que isso me conforte, busco interpretações e justificativas para o que não deu certo, explicações para o que poderia dar. Eu sei que não precisa de palavras duras para eu finalmente reconhecer que isso não me levará à nada, isso não nos levará à nada, você nunca regou a planta, porque ela nem chegou a crescer. Mas no fundo eu continuo esperando ser teu sol, ser aquela coisa boa para compensar teus dias ruins. 
        Eu continuo esperando ter a chance de fazer valer à pena e de que você seja como no fundo eu imagino que és, que teus muros, tua cara feia e teu mau-humor são fachadas, são jogos de desafios e paciência que eu tenho de vencer. Mas é difícil de saber, a linha tênue que separa a indiferença do medo de agir é fina e frágil e eu sou nova nesse jogo de desapego. Ou sou tudo, ou não sou nada, ainda que por você eu estivesse disposta a ser meio termo, a ser qualquer coisa, qualquer coisa que ultrapasse o SE, o TALVEZ, a possibilidade de que a gente pudesse ser algo mais e de que pudesse dar certo, é como agulha que arranha na pele, é incômodo pequeno, mas que se presentifica todo dia.
        Difícil mesmo é pôr dois pontos ou um ponto final quando a única certeza que tenho é que esse texto vai passar por você despercebido e eu terei jogado a chance de dizer tudo o que tenho para dizer, porque fui covarde, porque sou orgulhosa e porque não quero entregar meu coração correndo o risco de uma catástrofe cair sobre mim. A verdade é que eu só quero tentar, se for para dar certo, mas que a possibilidade de acontecer é perfeita daqui de onde vejo, dentro da minha mente.